O texto “Repensando a textualidade” de Maria da Graça Costa Val, contido no Livro Língua portuguesa em debate: conhecimento e ensino; organizado por José Carlos de Azeredo, aborda alguns dos elementos que fazem parte da história da Linguística Textual, a qual tem se dedicado a estudar a constituição do texto, bem como os fatores que norteiam a sua produção e recepção. Surge a necessidade de se repensar o conceito de textualidade, sobretudo com as contribuições oferecidas pela Análise do discurso, pelas teorias da enunciação, pela Pragmática, pela Análise da Conversação, dentre outros.
Costa e Val citando Maria-Elisabeth Conte, mostra que no desenvolvimento da Linguística Textual destacou-se três ‘momentos tipológicos’. No primeiro, a análise ‘transfrástica’, a atenção se dava às relações entre os enunciados. Passou-se a analisar segundo a autora fenômenos como a correferência, o emprego do artigo, a correlação entre tempos e modos verbais, que hoje identificamos como atinentes à coesão textual. No segundo momento o interesse se voltava para a construção de gramáticas do texto. Neste, o texto passa a ser visto mais do que uma sequência de frases e seu significado dá-se a partir do todo que o compõe. O conceito chomskyano de competência lingüística é ampliado para o de competência textual. No terceiro momento tipológico da Linguística Textual, passou-se a construir teorias do texto, nas quais ganha destaque os aspectos pragmáticos. Assim não mais se buscaria explicar a competência lingüística, nem a competência textual, e sim, a competência comunicativa, referente à capacidade de se participar com eficiência e eficácia das situações sociais de comunicação.
Segundo Costa Val, surgem alguns conceitos de texto como o de Halliday & Hasan (1976): ‘é uma unidade de língua em uso’ (p.1), a textura que equivale à textualidade define-se como uma propriedade que faz com que o texto funcione ‘como uma unidade em relação a seu contexto’ (p.2).
São Beaugrande & Dressler (1981), segundo Costa Val, que postulam os sete princípios que constituem a textualidade, criando a comunicação social. São eles: coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, informatividade, situacionalidade e intertextualidade; além dos três princípios que regulam e controlam a comunicação textual – eficiência, eficácia e adequação.
Conforme Costa Val os sete padrões de textualidade são entendidos pelos autores como princípios constitutivos da comunicação textual que funcionam integralmente com três princípios reguladores – a eficiência, a eficácia e a adequação –, cujo papel seria viabilizar o monitoramento do processo comunicativo pelos participantes. A eficiência de um texto diz respeito à sua capacidade de comunicar com o mínimo de esforço tanto do produtor quanto do receptor; a eficiência (eficácia na verdade) está ligada a sua capacidade de ‘impressionar’ o recebedor; a adequação tem a ver com a pertinência e relevância do arranjo que constitui sua textualidade com relação ao contexto em que ele ocorre (p. 41).
Para Beaugrande (1980), citado em Beaugrande & Dressler (1981: 35), conforme Costa Val, o texto é um conjunto de elementos funcionais juntos. Produzir e interpretar textos seriam processos para se resolver problemas em que os princípios reguladores teriam a função de contribuir para o inter-relacionamento dos sete princípios que constituem a textualidade.
No tocante ao artigo de Charolles (1978), Introduction aux problèmes de la coherence des textes, este aborda as regras ou as ‘meta-regras’ que constituem a coerência, que para Charolles (1978), segundo Costa Val, não se distingue de coesão. Para Charolles (1978) a coerência e o sentido do texto dependem da situação, o texto não é coerente e nem deixa de ser em si mesmo, é a situação que o determinará como coerente ou não para alguém.
Na primeira meta-regra, chamada de meta-regra de repetição, para que um texto seja coerente, é preciso que contenha, em seu desenvolvimento linear, elementos e recorrência estrita; na qual se continua falando de algo que já foi dito anteriormente, explícita ou implícita, em um determinado texto. A segunda meta-regra diz respeito à progressão, na qual para que um texto seja coerente é preciso que em seu desenvolvimento haja uma contribuição semântica que se renove constantemente. Segundo Costa Val, a intuição textual dos falantes explica esse requisito de coerência com expressões como ‘ir para frente’, ‘não ficar amassando barro’, etc. Na terceira mete-regra que se refere à não-contradição, para que haja coerência em um texto, é preciso que no seu desenvolvimento não se introduza nenhum elemento semântico que venha a contradizer algo posto por uma ocorrência anterior, ou deduzível destea por inferência. Essa meta-regra permite que um texto não se contradiga negando o que afirmou ou afirmando o que negou. Se por exemplo um determinado texto explicita que a fórmula da água é H2O, não poderá na sequência do texto expor que a fórmula é CO2. A quarta e última meta-regra é a que Charolles (1978) chama de relação. Nesta, para que uma sequência ou um texto sejam coerentes, é necessário que os fatos que denotam no mundo representado estejam diretamente relacionados.
Para Costa Val,
As meta-regras se mostram úteis em sala de aula porque ‘destrinçam’ de que se constitui a coerência, possibilitando ao professor orientações e avaliações mais objetivas, menos dependentes de gosto ou crença pessoal, no trabalho com textos (p. 46).
O trabalho de Charolles é apresentado como enfatizador da realidade entre as meta-ragras, não deixando escapar que a coerência não está no texto enquanto produto, mas, antes, é um processo resultante da interlocução. Beaugrande (1997) rejeita a idéia de se ver o texto como produto ou artefato, para ele segundo Costa Val, a textualidade é um processo de textualização. Sobre a distinção entre texto e não-texto, Beaugrande (1997) citado por Costa Val diz:
Desde o aparecimento, em 1981, da obra Introduction de Text Linguistics, que usou os sete princípios de textualidade como base, nós necessitamos enfatizar que eles designam as mais importantes formas de conectividade e não (como alguns estudos assumem) os fatores lingüísticos do texto-artefato, nem as fronteiras entre ‘textos’ e ‘não-textos’. Os princípios aplicam-se onde quer que um artefato seja textualizado, mesmo que alguém julgue o resultado ‘incoerente’, ‘sem propósito’, ‘inaceitável’ etc. Tais julgamentos indicam que o texto pode não ser apropriado (adequado para a ocasião), ou eficiente (fácil de manusear), ou eficaz (proveitoso para o objetivo ou intenção); mesmo assim é um texto. Em geral, as perturbações e irregularidades são desconsideradas, ou entendidas como sinais de espontaneidade, estresse, sobrecarga, ignorância, e não como perda ou negação da textualidade (p. 15).
Conforme Cota Val sempre que alguém interpretar um artefato como texto é porque este possui os princípios de textualização, como coesão, coerência e tudo mais.
Para finalizar o texto Costa Val destaca que a posição que assume no tocante a textualidade pode deixar os professores perplexos, já que tudo passa a ser texto, que ‘não se pode dizer que um texto não tem coerência ou não tem coesão’, fazendo assim com que tudo que os alunos escrevam esteja bom. Ainda segundo a autora um trabalho de ensino orientado pelos princípios expostos poderá contribuir, efetivamente, para a formação de escritores e leitores habilitados para uma convivência social.
AZEREDO, José Carlos (org.). Repensando a textualidade. In: Língua portuguesa em debate: conhecimento e ensino. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007, p. 34-51.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
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Gostamos muito do texto "repensando a textualidade" um texto muito bom, rico em informações, estas fundamentais para nós alunos de letras.
ResponderExcluirMuito bem!!! Tarefa cumprida. Só peço mais atenção aos aspectos de ordem linguistica e de organização textual. Em LT focalizamos isso. Então, é o mínimo que temos que cumprir. De todo modo, bom trabalho!!
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